terça-feira, 12 de novembro de 2013

SURPRESA

Arte de Luciana Severo Frota


Nunca chegue cedo demais na hora em que você deveria chegar em casa.
Chegue sempre no combinado. Atrase até.

Respeite os seus pressentimentos. Nunca antecipe o encontro.
Nunca se afobe quando o encontro estiver próximo.

Ligue antes de chegar, mande uma mensagem de texto no celular, um sinal de fumaça; avise por correio, e-mail, aviãozinho, código morse. Bata na porta que nem o Sheldon Cooper vinte vezes antes de passar pela última barreira para pisar o tapete da casa.

Ou senão demore e não avise nada a não ser que tenha sido solicitado.

Ande devagar, contemple as estrelas, a rua deserta na noite.
Fique mais um pouco sustentando a saudade.

Não vá enfiando a chave de uma vez na fechadura da porta dos fundos e entrando como se fosse entrar em qualquer lugar. Entre pela porta da frente, onde raramente residem as surpresas.
Entre cuidadosamente.
Pé ante pé, pela sala.

Pode-se pegar as panelas sujas; os ingredientes ainda sobre a mesa, o melhor capítulo da novela ainda no último volume, a expectativa ainda sendo sentida; o sentir-se à vontade que é crime pegar em flagrante e só pode ser provado sozinho.

Pode sentir-se você o invasor; o estraga-surpresas.

Aquele que chega sem se importar com o que virá no final da noite.
Aquele que fecha as contas e encerra o expediente amoroso, mesmo antes de chegar em casa em vez de valorizar o melhor momento do dia.

Aquele em que se pode descansar o peso do mundo no cabideiro (ou também jogá-lo pela janela) e o da cabeça num colo.

Aquele em que não se precisa ficar gastando assunto ou dizendo como foi o dia que estamos cansados de viver e dizer. Em que se poupa as palavras e se beija com os lábios secos de sede para deixá-los hidratados novamente.

E aí não importa o que você diga, - o que era pra ser não será mais.
A surpresa planejada em si não terá início, ou sequer terá algum tipo de fim que deveria ou poderia ter.

Você não ficará surpreso. Ela ficará surpreendida.
Rendida, com as evidências na mão.

E mesmo que ela não diga, rediga, diga que está tudo bem:
ficará a grande dúvida e frustração no ar de como teria sido a experiência simplesmente se o que era pra vir depois, veio antes.

Ficarão dois conselhos para o amor:

Antes (um pouco) tarde do que nunca.
Só termine um dia mesmo, quando ele encerrar-se por si próprio.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

MANUAL

Arte de Claudinei Bettiol


Hoje em dia, todos são especialistas em tudo.

Se criam manuais de vinte coisas praquilo,
trinta coisas para se conquistar uma pessoa, mais 300 coisas que não deveríamos fazer...

Mas de fato, ninguém tenta seguir o seu próprio instinto.
Ninguém se pergunta diretamente como conseguir isto ou aquilo.
Ninguém monta no próprio cavalo e procura buscar dentro de si as respostas.


Ninguém pára por um tempo das correrias cotidianas, pra se pensar como vai indo,
e se como está, está tudo bem.

Nossa educação de base nos ensina a não confiarmos em nosso taco; a não acreditarmos em nossa individualidade. A olharmos sempre de queixo baixo para os conflitos internos ou externos que nos atormentam.

Falta mais filosofia, - no sentido epistemológico da palavra - nas nossas vidas.
Amor à sabedoria.

Somos criados homens e mulheres que não refletem suas próprias atitudes,
 e logo depois de adultos, pessoas atormentadas pelo motivo de que de repente se deparam com a sua própria essência em diversificados aspectos da vida.

A gente sabe que seguir a nossa própria convicção dá trabalho.
Pensar uma forma de trabalho, um jeito de ser, de se sentir bem; defender as coisas que só a sua própria natureza lhe presenteou.

E daí sempre s
urgem os antagonistas de nossa vida. Muita coisa e contexto vêm bater de frente com esse modo de ir, que escolhemos. Porém, ninguém nunca disse que fazer isto, é tarefa fácil.

Quem não cria para si estratégias de autodescoberta, quem não bola pra si dicas de como fazer qualquer coisa, quem não trabalha a partir de seus defeitos e medos uma autoconfiança baseada em si mesmo, sem muitas muletas externas, vive pegando muitas opiniões emprestadas dos outros.

Segue a boiada a esmo da competitividade capitalista e não tem uma vida própria.

Torna-se um simples boneco de manipulação dos maiores interesses. Que quando se depara com seus erros, suas qualidades, sua essência, vem a ser um ser inseguro, líquido, frágil e sem rumo.

Depende dos outros, direta e indiretamente pra se viver.

Portanto, não importa a idade:
Sempre é tempo de tirar as correntes, sair da própria jaula, buscar seu próprio mundo.

Sempre é tempo de queimar os manuais e jogá-los no lixo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

MULHER: PATRIMÔNIO PÚBLICO?




Salvador, 10 de setembro de 2013

Fulana caminhava tranquila pela Avenida Sete de Setembro. Tinha saído da academia provavelmente; poderia estar indo para a casa, se arrumar pros seus compromissos diários. 


Seus braços miúdos estavam ocupados com o volume que carregava. Um cesto de flores no braço esquerdo, desses que guarda lembranças com chocolates, cartão de namoro, coisas assim. 


Do seu lado direito, tinha as mãos dadas com uma criança que aparentava uns seis, sete anos de idade. Conversavam sobre uma série de coisas.

Num dado momento um homem alto, bonito e bem vestido, passa em sentido contrário e pára na frente de Fulana: assovia, mirando minuciosamente o seu corpo e passando a mão em seus cabelos cacheados. Completa ele, com a seguinte frase:

- "Que delícia você com essa roupa. Te lasco inteira em banda, neguinha."

Fulana abaixa a cabeça e transforma o sorriso numa desfiguração medonha. Xinga o homem que ri, já a alguns metros de distância. A criança presenciara tudo. Sente por um momento vergonha dela. Abaixa o queixo, respira fundo.

- Liga pra esse babaca não, moça. Disse eu impulsivamente, constrangido e passando ao seu lado, temendo até uma resposta negativa por parte dela, o que seria de se entender.
Ainda de olhos baixos, ela me responde:

- "Nada não menino. É normal, já estou acostumada com isso."

Virou-se para a menina, e complementou:

- "Já sabe como é né? É assim mesmo. Vá se acostumando com essas coisas, quando você ficar mais mocinha."

E foi-se embora, seguindo o seu caminho.

---

Escutava muito, que os homens de Salvador em maioria, salvo exceções - são muito sujos. Que olham a mulher de uma forma estuprante; psicopática.

Me sinto até mal quando escuto tal afirmação.

Que quando não somente apalpam a palavra, vêm acompanhados fortemente de algum tipo de violação abundante.

Na cidade, encontramos muitos problemas com relação à violência do homem, contra a mulher. Em Salvador os números, que quase nunca dizem com exatidão a real situação no dia a dia, são piores, quando levados em consideração os números das grandes metrópoles país afora. Com uma taxa de 8,3 a cada 100 mil mulheres, a capital baiana ocupa a quinta colocação quando o assunto é violência contra a mulher (a média nacional das capitais é de 5,4, de acordo com os dados do Mapa da Violência).

Pode parecer exagero, mas são nesses mínimos detalhes, em mínimas atitudes como a relatada àcima, que os problemas se sustentam e manifestam-se para o futuro. Aquela risada em conjunto com os rapazes, pode estar sustentando uma situação muito delicada, que tem uma trajetória de séculos e mais séculos de opressão ao gênero.

A mulher é o seu próprio espaço privado; é o seu canto intocável.
Humanamente inviolável. Ela é dela. De mais ninguém.

O corpo da mulher não é patrimônio público, quando põe o pé nas ruas. Nem doméstico, quando está dentro de casa.

Não é corrimão para passar a mão. Nem telefone público, pra se dizer qualquer asneira.

E muitas, acuadas, estuporam. Deixam passar, já que é um tipo de violência assim como muitas outras, impossível de se impedir. O homem é o “mais forte”. E uma pessoa capaz de dizer o que diz naquele momento, pode fazer coisa pior. Então fica por isso mesmo.

As gerações futuras serão aconselhadas a entender que é uma coisa normal. Até que se pense necessariamente sobre a educação em casa, nas ruas, nas escolas, nos meios de comunicação.

A intimidação, o assédio, a inferiorização, não podem ser sombra de dúvida do feminino nas ruas.

Desacostumar a estas ideias sexistas dos dois lados que vulnerabilizam cada vez mais as relações de gênero é o começo de uma melhor organização nos valores sociais.

Discutir o assédio nas ruas, promover formas de evitar este tipo de intimidação é importante para que se chegue a uma possível solução em nome do respeito e do bem-estar entre as pessoas.

Para que se possa sair à vontade na rua, ter passe-livre no jeito.

Ou vai encerrar a discussão, a dizer que a culpa é da roupa que ela usa? Ou por quê ela é uma vadia?

Qual a próxima desculpa até que tanta gente saia lesada?

http://thinkolga.com/chega-de-fiu-fiu/

quinta-feira, 25 de julho de 2013

ARTISTA NÃO SABE COBRAR


Grafite de Denissena

Artista não sabe cobrar.

Não acredita que um pedaço de papel dite o valor daquela sensação ao preencher aquele compasso, ou pintar aquele quadro. Não acredita que a vida virou um grande negócio. 

Vive num mundo paralelo, lunático. Atrasado, diante do mundo.

Não acredita, muitas vezes que o que faz é um trabalho. Mas sofre, como estando estar em um.


Os lapsos de loucura maligna e doenças psicosomáticas que adquire com o estresse da profissão. As horas que ele fica sozinho sem a família. Ou que termina relacionamentos promissores por falta de tempo e dedicação. As histórias são muitas, de gente que desiste por que não conseguiu tocar seu o instrumento; a sua vida, comprar as suas tintas. 


Por que geralmente o que ofereciam não dava nem pra voltar pra sua cidade, isso quando era pago. Ou consertar o seu violão. Ou pagar as suas contas. Ajudar a família. Ou convidar a mulher para jantar fora de casa no meio do mês
.

Porquê tinham que tocar quatro horas seguidas num lugar que não davam a mínima para ele. Porquê passaram a vida inteira dançando a dança no que não tinha jeito. 
Ou mesmo por que quantia em dinheiro, virou sinônimo de respeito. 

Tenho, tive amigos que me renderam histórias. H
istórias que até hoje não acredito, mas que são verdade. Confesso, às vezes tenho muito, muito medo de ser uma delas algum dia. Desistiram da arte. Desistiram da vida. Desistiram de sequer querer alguma coisa com essas duas.

Mona, a minha Namorada, questionou-me sobre a minha forma de trabalhar.
Minha maneira de cobrar o meu valor, se é que me entendem; o justo valor por uma concepção criativa, por sentir por alguém; por dar uma vida inteira pelas coisas que faço, e não ser devidamente respeitado.


Me chateei. 

Fechei a cara e com o meu orgulho e vaidade deixei de ouvir o que ela sempre discordava em mim. Isolei-me da conversa em que estávamos. Pus desesperadamente um ponto final abrupto e deselegante no meio de um paragrafo incompleto seu.

Perdi mais uma vez uma boa oportunidade de melhorar na vida. Ser menos ignorante comigo mesmo.
Alguém, percebendo alguma coisa que me atrapalhava, querendo me fazer crescer. Construir junto, alguma solução para deixar de olhar somente pelo lado divino e ingênuo das coisas.


Por que sabia eu que ela estava certa. Não aprendi ainda a lidar com a verdade. A minha arte pode ser o que ela for. Mas que o artista, acima de tudo, deve ser responsável por ela. 

Deve acompanhá-la no seu mundo.

Deve aprender a se respeitar, para que possa ele ser respeitado.
Respeito se constrói. Respeito é cuidado. O importante é cuidar de si mesmo, para ensinar o que é ser respeitado.

Não pode ser que nem construir um castelo de cartas na praia num dia de tempestade.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O INTERROGATÓRIO AMOROSO


Web


Sou extremamente insuportável.

Quando vejo tristeza por perto, quero salvar o mundo dela.
Sem lembrar que muitas vezes ela é necessária.

Interrompo, indago, proponho.
Me torno um interventor de obras prontas. Um poeta de versos inúteis.

Fico rodeando; olhando de cima, procurando as respostas que não dizem a meu respeito. Me inquieto, opino;

um autêntico psicólogo made in feira do rolo.
É muito, muitíssimo óbvio que quem está triste e pensativo, precisa mesmo é de se isolar um pouco do mundo. Ficar na sua. Estar em silêncio [ou não]. Ter a oportunidade de entrar em comunhão consigo mesmo.

Nestas horas, é bom se afastar.

Por mais que se esteja cheio de boas intenções, não é saudável interferir no silêncio do outro; e por hora é necessário aniquilar os sentimentos egoístas.

Impossível ser uma pessoa necessária; a toda hora, estando tão perto.

Quem não está legal nunca vai se recuperar com a pressão de quem quer saber demais. 
Tende a gerar mais conflito, mais afastamento.

Afinal ninguém precisa dar satisfação de tudo, a quem quer que seja.

Quem está triste acaba mais entristecido ainda com o interrogatório, com a descrição do seu estado de espírito no espelho dos ouvidos.

Portanto: não sabe o que dizer, não diga. Melhor que dizer qualquer coisa.
Não sabe o que fazer, não faça. Melhor que fazer qualquer coisa, indiscriminadamente.

E muito menos pergunte o que fazer, ou dizer.


Dar espaço na cena; na sala, no quarto, ou aonde você estiver; numa hora em que você não é o protagonista, é o melhor sinal de humildade e compreensão.


O amor não pergunta muito.
E com o seu silêncio, ele sim; ajuda a encontrar inúmeras respostas.



sábado, 20 de julho de 2013

A MELHOR AMIZADE


Arte de Marcos Andruchak


Conquistar uma amizade verdadeira não é fácil. Não tem tempo exato para isso. Ela existe de verdade num momento específico. Passa a se mostrar inteira nas horas mais inesperadas.

Compreende o seu espaço, jamais telefona para recriminar, ou mesmo testa o seu sentimento. Esta lá, e lá está. O tempo passa, mas ela não. Amizade não tem tabuada, nem data de nascimento. Ser amigo é ter passe-livre.

Se prender a alguém que se quer para ter onde ir e voltar com respeito, é ser livre.

A amizade tem de ser feinha, pra começar.
Senão é fingimento. Senão é interesse.

Tem que ter defeito, tem que ser estranho. Tem que haver um dente torto, uma cara amarrada. Precisa existir, aquele equívoco que no final das contas, nos deixa mais admirados ainda.

Um defeito aqui, outro ali: e pronto. Tudo se resolve.

Ela está em todos os planos.
Não se conduz uma vida sem ela.

Um casal que não viveu uma amizade antes; ou se esquece que antes de estar junto viveu uma grande amizade primeiro, bem antes do peremptório amor, este tende a acelerar o seu final.

Quem não recorda do seu passado, não refresca as memórias, fatalmente tende a se derrotar no presente.
 

Minha maior amizade começou num reencontro inesperado. Passou por um não no meio da Praça das Artes. Veio com um tornado quebrando telhados. Viajou por entre fibras óticas, entre linhas telefônicas e mensagens no celular e continuou crescendo entre os coqueiros entardecidos.

Até crescer mais que os coqueiros.
Fincar mais que as raízes.

Hoje ela dorme comigo.
Dorme sempre primeiro que eu.
Chega cansada do mundo medíocre, moída de não entender muita coisa. Espera o meu peito chegar, meu coração bater perto; a minha porta abrir, a minha voz de camomila lhe entorpecer.

De madrugada, quando faz frio, puxamos o cobertor que dividimos.
Dividimos a cama, as dívidas, as tristezas, o carinho nos felinos, o computador e o mercado do mês.

Não tenho medo por parecer limitar o amor ou vergonha, ao dizer para ela que ela é a minha melhor amiga.

Quando os beijos de amor, os afetos mais íntimos não respondem mais por si, a amizade sempre está lá, fixa, no fundo de tudo. Quererá arrumar a casa, organizar as gavetas. Cuidar incondicionalmente do amor.

Passar mertiolate para arder e esparadrapo para preservar.
Amizade é a pedra fundamental da nossa união.  
O amor que não morrerá, se for bem cuidado. 

É como um código de batalha cotidiano; como o juiz de todos os momentos. Quando exageramos um com o outro, por mais que o muro do orgulho seja grande e ferino entre nós dois, poderemos ser capazes de derrubá-lo quando quisermos para estarmos perto novamente.

É o que sustenta nossa loucura, o que nos dá a segurança de fazer qualquer bobagem, de mandar o outro embora, de dizer qualquer asneira. De sentir-nos fracassados; de morrermos de amargura, sofrermos de angústia, mesmo sendo difícil se enxergar assim ao lado de alguém.

É perceber que mesmo sendo complicado ser compreendido, alguém se esforça para tal e aos poucos, em homeopáticas medidas rasas ou profundas, consegue um mínimo de compreensão e respeito.

É perceber que quando amamos, o mundo pode estar contra nós, que inventamos um jeito de estar.

A boa amizade cultiva essas coisas.




segunda-feira, 15 de julho de 2013

O PODER DA INVEJA




O senso comum diz pra gente ter muito cuidado com a inveja.

Que a gente não exponha o nosso grande amor, por causa do olho gordo.

Não fale daquele novo trabalho, do sucesso na vida em público, por que com certeza vão querer tomá-lo de você.

Que a gente não mostre a ardência de nossa felicidade, pois existem muitos seca-pimenteiras por aí.

Não demostre harmonia, pois vão querer desarmonizá-lo.

Se sentir inveja já é complicado, ter medo da inveja alheia é atestar a própria insegurança diante do monstro dos olhos esverdeados.

Então como solução, mostre o desamor; para não correr o risco.

Não resista e faça tudo pela metade, para não terem nada pelo que pensar ou ansear de você.

Esconda-se na sua tristeza, para que os outros não sintam inveja da sua felicidade.

Pois de tristeza, ninguém sente inveja.
Inveja é tristeza.

Se anule; viva com medo. Não dobre à esquina, pois muitos irão invejar a sua força de seguir o caminho que se quer. Tire a palavra coragem do dicionário.

Não viva.
Esqueça disso.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

MÚLTIPLA PERSONALIDADE


Pintura de Eli Heil.

No fundo no fundo, todo mundo que está num relacionamento anseia por uma pessoa de múltiplas personalidades ao lado. Sendo que estas precisam vir no momento exato. Senão é exagero. 
Ou caso sério de psiquiatra.

Um advinho, alguém que entenda tudo na hora certa, no momento certo. Que não faça muitas perguntas, mas que saiba as respostas das perguntas que não são feitas.

Tem que saber ser duro e não grossseiro. Paciente, mas não passivo. Firme, mas não impositivo. Alegre, mas não um bestão. Independente, mas não demasiado a ponto de esquecer o par.

Tem de sorrir, mas não sorrir de tudo: pois aí é desespero. Ser natural, mas não indiferente. Confiante, mas não inconsequente.
Leve, mas não vacilante.

Cafajeste, mas não promíscuo.
Próximo, mas não grudento.

É difícil, ser tantos, e tantos. Acertar na loteria. Baixar o Mago Mustafá. Advinhar o que há de ser, calado, sem abracabras nem alacazans; num mundo totalmente refém das palavras, para o sucesso da magia do amor.

Captar todas as possibilidades, pensar em todos os detalhes, medir todos os efeitos; é algo muito difícil de acontecer e se repetir constantemente.

É o teste da sintonia, o segredo da percepção emocional, amorosa.
Tudo tem de vir no momento exato. Mas nem sempre vem. Ás vezes, nunca vem.

Ser mago advinho e caso psiquiátrico, quando nada do que se conhece pode dar certo. E ás vezes, trazer até a resposta do milhão.

E o insucesso da advinhação resulta em descompasso, desarmonia.
E o insucesso da reação de quando se descobre o grande mistério tarde demais é explosivo.

Então, não advinhe.
Ao menos é o ideal (só em último caso).

Perceba.
Desarme-se. Respeite.
Entender o outro é uma arte difícil, não indica sucesso sempre.

E não possui muitas perguntas. Muitas delongas.
Pode ser um silêncio que com a prática, atinge-se uma boa música.

Vez ou outra você irá escutar um sonoro

- "Você não entende."

Mas é normal, ninguém é entendido cem por cento, sequer compreende assim tanto a si mesmo. Nem sendo mago, ou com essa capacidade especial de ser múltipla persona.

Perceber é estar paciente.
Ser paciente, é algo que estamos aprendendo.
Sempre.

E no amor, não podem haver tantas cobranças veladas.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

DEIXEM-NOS PASSAR



Foto de Gabriel Mussi.

"Deixem-nos passar, nos dêem passe livre."

Quando se diz “passe livre”, é passe livre para voltar pra casa quando der, no horário que quiser; sem medo de assaltos, estupros, espancamentos e de qualquer forma de violência.

Passe livre nas pistas, para andar de bicicleta sem temer ser estraçalhado pelos automóveis.

Passe livre contra a impunidade e a falta de transparência dos altos cargos públicos.
Passe livre contra a letargia do povo, contra a lavagem cerebral que alimenta a lombra dos jovens dessa e de nossa geração.  Passe livre, para jogar a televisão pela janela.

Passe livre para andar de mãos dadas seja com quem for e não ser agredido.
Passe livre para vestir o que bem entender, se sentir bonita e não ser assediada nas ruas.

Passe livre para protestar e acabar com esse silêncio velado que nos é imposto nessa ditadura do medo hediondo e do dinheiro, que HÁ TEMPOS assola a gente.

Foi-se o tempo em que sonho se comprava por R$ 0,20 centavos na padaria.

 “Os sonhos inflacionaram”, diz o governo.
Mais por esse valor, e a soma de todas as outras inflações, inflacionou também a nossa paciência.

Uma voz não tem preço, quando se está a dizer alguma coisa.
Não se vende aos partidos políticos, aos folhetos de imprensa ou mesmo às propagandas de automóveis, como fazem até os dias de hoje.

Não se vende ao conservadorismo, não se limita aos quatro cantos de um parvo campo de futebol de gente que corre e não se manifesta, pois é muito bem paga para permanecer calada no seu canto. 

Queremos ser livres disto tudo e de mais um monte de coisa.

Ser livre:

é saber de onde se é. Poder encontrar-se. Estar respeitado. Representado.
Ter a sensação de pertencimento a algum lugar.
Ser de algum modo, de algum mundo. 

Que nunca, nunca mais esvaziemos as ruas, tampouco as nossas cabeças.
Que possamos encher as ruas de vida e as cabeças de flores.

Pois são elas que pensam as mudanças.




quarta-feira, 5 de junho de 2013

OS MEUS OLHOS

Acervo pessoal


Os meus olhos turvos
 transformaram-se em água: desaguarão impuras na secura da face

dançarão poças de mar e peixes à minha tristeza de só.

Ficarão para o sorver das éguas aladas e noturnas
para o encharcar da terra e a morte das sementeiras

deixarão os vermes bêbados; enferrujarão as foices que ceifam
e nutrirão os ossos verdes das árvores mais tristes.

Fará lagoa e será de espelho
para  despir a roupa,
 da mulher na lua.

Depois escoará no esquecimento
no ralo da dor ungida.

E no lugar dos olhos invernais, 
verão.

Duas covas mergulhadas na terra.
duas cavernas profundas, fundadas no rosto. 

Como se já não houvessem mais olhos,
só o olhar vazio, cheio de vão.

Assim depois da dor virá o mistério.

domingo, 28 de abril de 2013

MEUS ADORÁVEIS PAIS


Pintura de Edvard Munch.

Meus pais nunca me contaram como se conheceram.
Como se apaixonaram. O que os uniu um dia; para um dia serem pilares de um mesmo teto.

O que de repente ela esperava de um homem, o que ele esperava de uma mulher. 
Se juntos, tinham os sonhos de qualquer casal jovem dos anos 80. 

Se ele pensava nela antes do café da manhã; 
Se ela pensava nele enquanto estava na escola.

Não cheguei a tempo de saber a parte estável da vida deles.
Cheguei na hora de ver o medo escarpado em suas faces; e a traição lavrando ambas as mãos.
Vi as porcelanas quebradas; a casa revirada, as brigas violentas; a torneira sendo aberta para inundar a casa e o casamento.

Cheguei bem tarde, no olho do furacão, no final de um filme que parecia não ter fim. 
Só pude ver os créditos na culpa. A sessão vazia.
O dono da cantina ao lado, arrumando as cadeiras e alisando a flanela branca no balcão vazio. 

Tudo tinha terminado, e acabei não conhecendo direito o primeiro amor.
O amor que talvez me permitiu chorar o primeiro choro de fora da barriga.
Aquele que quando se foi, se foi abrupto; e me deixou uma dificuldade enorme em aprender com a vida. 

Hoje meus pais evitam me responder a qualquer pergunta sobre o passado. São péssimos conselheiros amorosos. Permanecem mudos. Preferem assim. Sentem uma vergonha humilhante de terem se apaixonado um dia. 

Ele abaixa o queixo. Desvia o olhar vacilante para algum ponto perdido no infinito e comenta sobre a nova contratação do Esporte Clube Bahia.

Ela levanta a cabeça. Engole o décimo sexto copo de cerva e em seguida pergunta como estão os meus cães; enquanto só tenho gatos.

Fingem que o tempo passou.
Como se finge que não se tem uma vida inteira para viver e suportar, antes de morrer.

Não insisto mais, pois seria muita maldade com o coração dos meus velhos. Persistir no meu egoísmo de querer saber das coisas. Mostrar-lhes as ruínas. Eles não tem culpa de nada. 

O amor sempre acaba. Acaba e recomeça num mesmo lugar, se assim ele tiver forças.
Só tiveram culpa das lacerações mútuas. Das palavras irreparáveis, ditas um ao outro.
Se machucaram demais, numa guerra sem propósitos.

Para eles só restaram de conselho os defeitos infindos a serem versados para o filho único: 

De quem foi o pior marido, de quem foi a pior esposa; 
De que eu não devo ser como o meu pai; 
De que eu não devo viver com uma mulher como a minha mãe.

De quem eu deveria ter defendido na trincheira do divórcio.

Mas cheguei a tempo de descobrir que o mundo não era tão fácil.
Que a felicidade é uma questão de tempo e uma boa dose de amor próprio.
Que a função de todo o filho é a de superar os seus pais.

Que o que eu precisava mesmo era sair da realidade e enxergar o o avesso de seus gestos para poder viver. Crescer e não repetir o mesmo filme novamente.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

BRUXAS EXISTEM



Mandrágora. "Esquizzo" de Miguel Moreira

Nunca conheci ou vi pessoalmente uma bruxa, dessas que dizem encarquilhadas, maltratadas; de verruga encrustada no nariz e dedos tortos de tanto mexer os caldeirões viciados que geralmente são para disseminar maldições e transformar patricinhas em aboboras.

As bruxas que eu conheci são bem diferentes do que dizem por aí.

Não vieram de um bosque negro; de uma caverna escondida, ou do subterrâneo das valas.

Gostam de luzes, apreciam uma boa companhia e dormem debaixo das árvores
com um livro bem aberto lhes servindo de cobertor.


Tem amigos complicados, relacionamentos sofisticados, namorados trouxas e amantes impublicáveis.
São amigas incríveis, namoradas excêntricas e amantes controladoras.

A vassoura e o caldeirão não fazem parte de seu inventário de magia.
O seu jeito inca, o seu sorriso maia e a sua saliva asteca, deixam qualquer Hag com inveja. 

Não gargalham as gargalhadas terríveis de quebrar cerâmica; e sim riem risadas de enfeitiçar a quem não se teme escutar.

Não temem nem crucifixos nem fogueiras.
Temem a companhia úmida de uma barata na parede da sua casa. 
Evocam socorro flutuando para cima de uma cadeira ou sofá, ou mesmo enrustidas debaixo de um edredom.

Voam quando pegam avião ou quando comem a genitália de alguma mandrágora.
Quando fazem amor, ou quando sonham alto demais.

Vão ao inferno e voltam quando tem o coração partido ou quando estão nos periódicos das cólicas menstruais.

Preferem ficar em casa num dia frio assistindo às películas do Woody Allen ou vendo escorrer os molhos de tomate do Quentin Tarantino.

Pensam em compor poções complexas durante a noite para estarem mais bonitas no dia seguinte.
Mas depois, compram Jequiti.

Sua simpatia não está nas revistas de fofocas ou nos livros sortílegos; mas sim em sua presença de alfazema.

Preocupam-se quantos dias faltam para o seu aniversário, como estão as contas no final do mês e se os seus gatos estão bem alimentados.

Sim: uma bruxa que se preze possui bichanos da mesma forma que eles a possui.

Sabem transformar tristeza em alegria. A alegria em algum doce de cusparadas na panela.
Compreendem a sutil diferença entre a dose certa e a dose letal de alguma coisa.
Beijam na verdade, como se beija um fruto suculento e envenenado.



Caminham nuas na frente dos pássaros e sabem dar nome a cada sabor de quando se mastiga pétala por pétala das rosas, amores-perfeitos e uma série de flores que se comem.

Driblam a ordem divina e estão pouco a pouco tirando do eixo o desnível da balança sobre o gênero.

Conseguem ser interessantemente femininas; apesar da brutalidade nada erótica do motor da metrópole.
Domam os leões paradigmáticos com uma torcidinha de nariz.
São bem melhores ordenando, que os inquisidores de plantão.

Tem uma memória bibliotecária, mas não são rancorosas.
Não conseguem ser malvadas;
apenas piores que isto, - 
"quase-boas".

Mal percebem quando estão sendo enfeitiçadas, mas sabem muito bem quando estão enfeitiçando.

Vivem em comunhão com a própria vida e em desentendimento constante com a morte.
Elas são despreocupadas por natureza, e
stas ninfas da pós-modernidade.

sexta-feira, 22 de março de 2013

FAXINAR A CASA


Pintura de Camila Bustios


Me disseram que era preciso caminhar com os paradigmas. O mundo anda mais prático.
Os bens se tornaram o complemento do bem.

Um dia os números no banco irão triplicar em nossas contas. A carga horária de trabalho aumentará. Quitaremos todos os nossos débitos. Compraremos a nossa tão sonhada máquina de lavar. A nossa tão querida casa.

A tabuleta de seja bem-vindo reluzirá em cima do piso. Contrataremos serviços tais para se ter mais tempo para mais planejaremos o precioso futuro. Aquilo que está por vir de todos os lados.

Tiraremos a prova dos nove de tudo entre zeros e uns números cardinais.
Continuaremos o ciclo. O até quando ininterrupto surto de Adão e Eva.

Então não haverá necessidade de nos preocuparmos em consertar tanta coisa. A mobília velha dará lugar à nova. E e a cama de casal poderá aumentar gradativamente o tamanho e tornar-se quem sabe uma king-size americana. Com a aquisição, teríamos a plena dimensão do gramado da Arena Fonte Nova em nosso quarto. De um gol para o outro.
  
Mais nostálgico, lembro da cama ir encolhendo para o nosso colchão velho e esquecido no canto, salpicado de pó de passado. Aquele traste desnecessário e democrático de um inverno remoto, lá no começo e que mais serve hoje como consolo, ao hóspede perdido.

Boas lembranças, boas coisas, são aquelas que nos movem para retirar a poeira que de vez em quando se assenta sobre elas. Elas vibram intensamente na ponta dos dedos, como se fossem novas.

O lugar de onde dormir diminuindo até que sejamos a cama um do outro.
E poder roçar as nossas costas, alisar as virilhas e arrancar as lêndias de dentro da cabeça; e morder os piolhos de araçá.

Até vivermos como se a casa andasse nua; sem gás, computador, ou quase nada.
Somente o frio branco dos azulejos a pisar os nossos olhos inexperientes. E o papel-alumínio do almoço alimentando o desejo.

O lar sempre a ser preenchido da gente: debalde os dois baldes, os panos velhos; os produtos de limpeza, a vassoura ruim,

o papelão de apanhador e um chão firme para ajeitar.

Nós dois.

domingo, 17 de março de 2013

CONSELHO DE AMIGO



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Arte de Karla Gerard.

I

Não chores assim menina:

Bem toda a dor, que quando é rima do 
[verdadeiro] amor
                     há de ser pequenina.

Não chore por falsidade. 
Viver, ainda mais para a gente; é uma arte.

E o que deve mesmo de lei
arder na vida

é a pimenta,
o amor,
e a cor do mertiolate!

II

Reza para os seus
e aquele de lá de cima

naquilo que a gente crê
e desatina


Se é gente ou bicho
serpente ou cobra
laranja ou
lima; ou mesmo gente morta.

III

Beija logo este rapaz!
Daqui a pouco ele se esvai
numa coluna de tempostais
e nunca mais, nunca mais

voltará atrás para ver o seu vestido
carmesim]

E que seja logo!
antes que venha

a mãe e o pai.

Por que se não, tu já sabes: 
é dor duas vezes 



é ui e é ai.


[Salvador, 26 de março de 1999.
Colégio; oitava série. 
Sala de  aula.]

quarta-feira, 13 de março de 2013

POIS A VIOLÊNCIA MUDA A NOSSA ROTINA


Pintura de Suzanne Marie Leclaire


A brutalidade é a principal matéria nos jornais da cidade hoje. Grande fonte de audiência nas redes sociais,  enas mídias de comunicação. O quanto mais cruel é o tipo de violência; mais inovadora, mais vendável ela é. Na tal indústria do medo e nos programas de televisão e rádio então, é muito, mas muito lucrativa.

Ela também é a principal disciplina nas escolas. A principal filosofia dos dias de hoje. Sem a brutalidade dos sistemas os paradigmas não funcionam corretamente.

É raro encontrar alguém que nunca foi vítima de algum tipo de violência. Ou que não conheça alguém próximo que tenha sido. O que difere de alguns anos atrás, em que a raridade consistia exatamente no contrário. Hoje tudo acontece diante dos nossos olhos. Não há mais a cortina translúcida do pudor. 

Salvador hoje está cheia de ira; de crises de estresse, taquicardia, epilepsia, dor de barriga, sudorese, tensões musculares. Sofre de síndrome do pânico, hipertensão, depressão, agorafobia, ansiedade, tantas patologias, paranoias e outras neuroses. Sente um medo periclitante de ter medo.

Não consegue mais sair de casa e tomar aquela aguinha de coco na praça, sem estar ressabiada. 
Deixa de ir ao teatro e ao cinema nos finais de semana.
Não pega o trem. Nem o barquinho.

Ela não deixa mais as crianças brincarem até tarde na porta de casa porquê outra vez, arquitetaram num trote o sequestro do filho de cinco anos do vizinho. Portanto, o quanto mais elas permanecerem no bunker do lar, melhor.

Na entrada de sua casa há três cadeados, dois portões, duas correntes e duas portas de metal; ambas com duas trancas. Todas as suas janelas são gradeadas. Quando alguém toca a campainha, ela olha cuidadosamente por um minúsculo olho mágico furado na porta, antes de tomar qualquer atitude precipitada.

Ao final de cada ano, divide com os amigos anônimos que preferem não divulgar as suas identidades temendo represálias, quantas vezes foi assaltada ou agredida moral, psíquico, fisica ou verbalmente. Para eles, deveria ela estar acostumada e seguir a vida normalmente como deve ser. É assim mesmo.

Para eles, só nos resta apelar para o escasso bom senso; para o conhecimento ou piedade irreal de quem tem a terrível capacidade de. Aquela que esvazia as ruas; que causa a desconfiança diurna e noturna; que gera mais a ela mesma que se pode imaginar.

Não há jeito mesmo que assim; e sei que vou morrer uma hora ou outra e ser mais um destes números no IML.


Espero especialmente que a minha morte, ao menos sob essa corrente de barbaridades, seja conservada para mim.

E eu só peço que não seja por assassinato,

ou imprudência alheia.

Que não seja pela mão do outro semelhante.

Acredito que a dor da desesperança seria maior do que qualquer outra coisa.

Que não seja num dia em que eu esteja muito, mas muito feliz; ou que a tristeza me arrebate o alabastro na calçada.

Que não seja enquanto eu estiver lendo algum livro que seja muito bom, ou mesmo redigindo algum texto de importância. Que não possa ser no momento de eu estar amando, ou tocando um instrumento: não aprecio coitos interrompidos.

Que não me afoguem, nem me queimem, espanquem, empalem, envenenem, esquartejem ou me torturem. Que façam nada com as minhas mãos e meus ouvidos. Que não me arremessem cravejado de balas na Estrada Velha do Aeroporto, com as mãos e os pés atados.

Que não carbonizem o meu corpo no microondas à beira de um penhasco obscuro; a mim e à minha tão pequena e há muito oprimida e sonhada "liberdade", nos tempos de hoje.

Aliás, façam o que quiser, o que bem-entenderem.


Mas por favor:

nunca, 
nunca atente contra quem eu ame.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

LER E RELER


"The Key". Pintura a óleo de Jackson Pollock


A única coisa que eu tinha quando mais jovem, eram os meus textos. E a sombra árborea dos meus livros. Coisas que poderia dizer que eram minhas. Eram papéis de embalar pão, cadernos velhos, livros usados, paredes brancas, a pele e a palma das mãos, tudo havia de ser escrito em cima. As palavras me fascinavam e no final delas sempre havia ao menos um pote de estrelas. 

Era uma pessoa do mundo; com os meus problemas, meus defeitos. E me resumia aos livros que lia, às fantasias que criava, às coisas que inventava e que ninguém entendia. Durante um tempo, conheci autores que hoje, caso os visse na rua – passariam como desconhecidos em minha frente. Lia coisas que pouca gente leu. Que vagamente lembro. Mas que de alguma forma creio que estão no que escrevo. Em minha forma de falar, de agir.

Morava nos livros onde quer que eu fosse; com direito a pôr uma placa de “não perturbe” a quem quer que se aproximasse de mim. Alguma coisa que escrevesse, e algum lugar para escrever era o suficiente para estar em algures. Eu era invisível aos olhos de onde ia. E gostava de ver as pessoas sobre o meu elefante. Aos meus nove anos, garatujava livros de miniatura em papéis-cartão recortados e os vendia aos meus amigos. Provavelmente nem existem mais, foram para o lixo de suas mães, assim como se vai toda a imaginação em abundância.

Em casa ou na escola secundária ou primária, diziam que eu era lunático demais. Diziam-me que eu morava em outro mundo. Tinha perguntas intransigentes. Questionava demais. Perturbava a paz alheia, com as minhas perguntas bobas e com as perguntas tão daninhas que brotavam dos livros. Era impossível, como criança. E logo, lunático. Depois, diziam que quando crescesse, iria conhecer a vida como ela é e deparar-se com um mundo verdadeiramente cruel. Iria decepcionar-me. Não resistiria.

Mas a literatura me protegia. Escrever diante de um problema era constituir o meu castelo. As letras eram os tijolos da minha fortaleza. As palavras, as vigas. As frases, os pilares. As ideias: o concreto. O teto: não havia teto. E poderia assim agir junto as palavras. Pensar era desembrulhar um papel velho e arduamente escrever, reescrever em cima. 

O meu dia era em função das minhas madrugadas. Onde eu teria silêncio e solidão para finalmente viver. Silêncio e solidão. Onde respirava, amiúde, a minha pequena liberdade. Ali. Naquela mesa quadrada da cozinha. À véspera da luz. Livros; papéis à mesa, caneca ou copo. Garrafa térmica. Caneta e lápis. Os meus quinze, desesseis, desessete, dezoito, vinte e poucos anos. Em seis plenas horas do dia, eu estaria lá. Era o que eu tinha. A literatura era o meu castelo. Gostava de viver nela pois lá eu poderia me sentir sozinho. E era o que me confortava. 

- Como era bom estar sozinho, pensava.

Pois para escrever, é preciso estar só. 
Escrever é arar seu próprio campo, escrever é orar seu próprio canto.

Quando cresci mais um pouco, conheci o tal do mundo, e de tão deslumbrado com tanto antagonismo os meus olhos endureceram. Quando me vi, já estava fora de lugar. O meu pensamento calou-se, assustado. E assim ficou por um bom tempo, sem palavras. Passei a abandonar os meus livros nas praças, nos coletivos. Dava a quem precisava. Oferecia como se oferece água. E com o passar do tempo, escrever não já era mais a minha realidade. O dia passou a ser a minha vida. E a noite, a minha morte. Morria todas as noites. Ás vezes já estava morto todos os dias e todas as noites. E por fim, deixei de estar só. 

Se alguém me perguntar hoje em dia, não sei mais da literatura. Não leio com a mesma volúpia de antes; não tenho o mesmo cuidado pelos livros. Mal os tenho em minhas mãos. Mal escrevo. Os meus olhos e as minhas mãos não sabem mais o que procuram.
Não sei mais estar só.

Ergo os meus textos de outrora, tiro-os da poeira e dos seus nomes aos montes. Há textos em caixas que nunca vi ou sequer lembro de onde tê-los guardado. Há textos em caixas que nunca vi. Há textos em caixas. Aliás não lembro de quando ter começado essa coisa de pensar por caixas. Não lembro de quando ter começado estas coisas. Não lembro de quando. Não lembro. Os meus castelos estarão cobertos de pó. Estarão abandonados. Em algum lugar além daqueles pedaços de papel com tinta em cima, que encontrei na memória de algum lugar esquecido. 

E agora só os resta serem relidos. 
Voltar de onde parei. Reencontrar-me. 
Ler. 
Reler. 
Reler-me em tudo.