quarta-feira, 24 de abril de 2013

BRUXAS EXISTEM



Mandrágora. "Esquizzo" de Miguel Moreira

Nunca conheci ou vi pessoalmente uma bruxa, dessas que dizem encarquilhadas, maltratadas; de verruga encrustada no nariz e dedos tortos de tanto mexer os caldeirões viciados que geralmente são para disseminar maldições e transformar patricinhas em aboboras.

As bruxas que eu conheci são bem diferentes do que dizem por aí.

Não vieram de um bosque negro; de uma caverna escondida, ou do subterrâneo das valas.

Gostam de luzes, apreciam uma boa companhia e dormem debaixo das árvores
com um livro bem aberto lhes servindo de cobertor.


Tem amigos complicados, relacionamentos sofisticados, namorados trouxas e amantes impublicáveis.
São amigas incríveis, namoradas excêntricas e amantes controladoras.

A vassoura e o caldeirão não fazem parte de seu inventário de magia.
O seu jeito inca, o seu sorriso maia e a sua saliva asteca, deixam qualquer Hag com inveja. 

Não gargalham as gargalhadas terríveis de quebrar cerâmica; e sim riem risadas de enfeitiçar a quem não se teme escutar.

Não temem nem crucifixos nem fogueiras.
Temem a companhia úmida de uma barata na parede da sua casa. 
Evocam socorro flutuando para cima de uma cadeira ou sofá, ou mesmo enrustidas debaixo de um edredom.

Voam quando pegam avião ou quando comem a genitália de alguma mandrágora.
Quando fazem amor, ou quando sonham alto demais.

Vão ao inferno e voltam quando tem o coração partido ou quando estão nos periódicos das cólicas menstruais.

Preferem ficar em casa num dia frio assistindo às películas do Woody Allen ou vendo escorrer os molhos de tomate do Quentin Tarantino.

Pensam em compor poções complexas durante a noite para estarem mais bonitas no dia seguinte.
Mas depois, compram Jequiti.

Sua simpatia não está nas revistas de fofocas ou nos livros sortílegos; mas sim em sua presença de alfazema.

Preocupam-se quantos dias faltam para o seu aniversário, como estão as contas no final do mês e se os seus gatos estão bem alimentados.

Sim: uma bruxa que se preze possui bichanos da mesma forma que eles a possui.

Sabem transformar tristeza em alegria. A alegria em algum doce de cusparadas na panela.
Compreendem a sutil diferença entre a dose certa e a dose letal de alguma coisa.
Beijam na verdade, como se beija um fruto suculento e envenenado.



Caminham nuas na frente dos pássaros e sabem dar nome a cada sabor de quando se mastiga pétala por pétala das rosas, amores-perfeitos e uma série de flores que se comem.

Driblam a ordem divina e estão pouco a pouco tirando do eixo o desnível da balança sobre o gênero.

Conseguem ser interessantemente femininas; apesar da brutalidade nada erótica do motor da metrópole.
Domam os leões paradigmáticos com uma torcidinha de nariz.
São bem melhores ordenando, que os inquisidores de plantão.

Tem uma memória bibliotecária, mas não são rancorosas.
Não conseguem ser malvadas;
apenas piores que isto, - 
"quase-boas".

Mal percebem quando estão sendo enfeitiçadas, mas sabem muito bem quando estão enfeitiçando.

Vivem em comunhão com a própria vida e em desentendimento constante com a morte.
Elas são despreocupadas por natureza, e
stas ninfas da pós-modernidade.

Um comentário:

  1. Eu acho que você merece uma saraivada de beijos por esse mimo! Lindo, lindo... Me fez ler sorrindo!!!

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