terça-feira, 12 de novembro de 2013

SURPRESA

Arte de Luciana Severo Frota


Nunca chegue cedo demais na hora em que você deveria chegar em casa.
Chegue sempre no combinado. Atrase até.

Respeite os seus pressentimentos. Nunca antecipe o encontro.
Nunca se afobe quando o encontro estiver próximo.

Ligue antes de chegar, mande uma mensagem de texto no celular, um sinal de fumaça; avise por correio, e-mail, aviãozinho, código morse. Bata na porta que nem o Sheldon Cooper vinte vezes antes de passar pela última barreira para pisar o tapete da casa.

Ou senão demore e não avise nada a não ser que tenha sido solicitado.

Ande devagar, contemple as estrelas, a rua deserta na noite.
Fique mais um pouco sustentando a saudade.

Não vá enfiando a chave de uma vez na fechadura da porta dos fundos e entrando como se fosse entrar em qualquer lugar. Entre pela porta da frente, onde raramente residem as surpresas.
Entre cuidadosamente.
Pé ante pé, pela sala.

Pode-se pegar as panelas sujas; os ingredientes ainda sobre a mesa, o melhor capítulo da novela ainda no último volume, a expectativa ainda sendo sentida; o sentir-se à vontade que é crime pegar em flagrante e só pode ser provado sozinho.

Pode sentir-se você o invasor; o estraga-surpresas.

Aquele que chega sem se importar com o que virá no final da noite.
Aquele que fecha as contas e encerra o expediente amoroso, mesmo antes de chegar em casa em vez de valorizar o melhor momento do dia.

Aquele em que se pode descansar o peso do mundo no cabideiro (ou também jogá-lo pela janela) e o da cabeça num colo.

Aquele em que não se precisa ficar gastando assunto ou dizendo como foi o dia que estamos cansados de viver e dizer. Em que se poupa as palavras e se beija com os lábios secos de sede para deixá-los hidratados novamente.

E aí não importa o que você diga, - o que era pra ser não será mais.
A surpresa planejada em si não terá início, ou sequer terá algum tipo de fim que deveria ou poderia ter.

Você não ficará surpreso. Ela ficará surpreendida.
Rendida, com as evidências na mão.

E mesmo que ela não diga, rediga, diga que está tudo bem:
ficará a grande dúvida e frustração no ar de como teria sido a experiência simplesmente se o que era pra vir depois, veio antes.

Ficarão dois conselhos para o amor:

Antes (um pouco) tarde do que nunca.
Só termine um dia mesmo, quando ele encerrar-se por si próprio.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

MANUAL

Arte de Claudinei Bettiol


Hoje em dia, todos são especialistas em tudo.

Se criam manuais de vinte coisas praquilo,
trinta coisas para se conquistar uma pessoa, mais 300 coisas que não deveríamos fazer...

Mas de fato, ninguém tenta seguir o seu próprio instinto.
Ninguém se pergunta diretamente como conseguir isto ou aquilo.
Ninguém monta no próprio cavalo e procura buscar dentro de si as respostas.


Ninguém pára por um tempo das correrias cotidianas, pra se pensar como vai indo,
e se como está, está tudo bem.

Nossa educação de base nos ensina a não confiarmos em nosso taco; a não acreditarmos em nossa individualidade. A olharmos sempre de queixo baixo para os conflitos internos ou externos que nos atormentam.

Falta mais filosofia, - no sentido epistemológico da palavra - nas nossas vidas.
Amor à sabedoria.

Somos criados homens e mulheres que não refletem suas próprias atitudes,
 e logo depois de adultos, pessoas atormentadas pelo motivo de que de repente se deparam com a sua própria essência em diversificados aspectos da vida.

A gente sabe que seguir a nossa própria convicção dá trabalho.
Pensar uma forma de trabalho, um jeito de ser, de se sentir bem; defender as coisas que só a sua própria natureza lhe presenteou.

E daí sempre s
urgem os antagonistas de nossa vida. Muita coisa e contexto vêm bater de frente com esse modo de ir, que escolhemos. Porém, ninguém nunca disse que fazer isto, é tarefa fácil.

Quem não cria para si estratégias de autodescoberta, quem não bola pra si dicas de como fazer qualquer coisa, quem não trabalha a partir de seus defeitos e medos uma autoconfiança baseada em si mesmo, sem muitas muletas externas, vive pegando muitas opiniões emprestadas dos outros.

Segue a boiada a esmo da competitividade capitalista e não tem uma vida própria.

Torna-se um simples boneco de manipulação dos maiores interesses. Que quando se depara com seus erros, suas qualidades, sua essência, vem a ser um ser inseguro, líquido, frágil e sem rumo.

Depende dos outros, direta e indiretamente pra se viver.

Portanto, não importa a idade:
Sempre é tempo de tirar as correntes, sair da própria jaula, buscar seu próprio mundo.

Sempre é tempo de queimar os manuais e jogá-los no lixo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

MULHER: PATRIMÔNIO PÚBLICO?




Salvador, 10 de setembro de 2013

Fulana caminhava tranquila pela Avenida Sete de Setembro. Tinha saído da academia provavelmente; poderia estar indo para a casa, se arrumar pros seus compromissos diários. 


Seus braços miúdos estavam ocupados com o volume que carregava. Um cesto de flores no braço esquerdo, desses que guarda lembranças com chocolates, cartão de namoro, coisas assim. 


Do seu lado direito, tinha as mãos dadas com uma criança que aparentava uns seis, sete anos de idade. Conversavam sobre uma série de coisas.

Num dado momento um homem alto, bonito e bem vestido, passa em sentido contrário e pára na frente de Fulana: assovia, mirando minuciosamente o seu corpo e passando a mão em seus cabelos cacheados. Completa ele, com a seguinte frase:

- "Que delícia você com essa roupa. Te lasco inteira em banda, neguinha."

Fulana abaixa a cabeça e transforma o sorriso numa desfiguração medonha. Xinga o homem que ri, já a alguns metros de distância. A criança presenciara tudo. Sente por um momento vergonha dela. Abaixa o queixo, respira fundo.

- Liga pra esse babaca não, moça. Disse eu impulsivamente, constrangido e passando ao seu lado, temendo até uma resposta negativa por parte dela, o que seria de se entender.
Ainda de olhos baixos, ela me responde:

- "Nada não menino. É normal, já estou acostumada com isso."

Virou-se para a menina, e complementou:

- "Já sabe como é né? É assim mesmo. Vá se acostumando com essas coisas, quando você ficar mais mocinha."

E foi-se embora, seguindo o seu caminho.

---

Escutava muito, que os homens de Salvador em maioria, salvo exceções - são muito sujos. Que olham a mulher de uma forma estuprante; psicopática.

Me sinto até mal quando escuto tal afirmação.

Que quando não somente apalpam a palavra, vêm acompanhados fortemente de algum tipo de violação abundante.

Na cidade, encontramos muitos problemas com relação à violência do homem, contra a mulher. Em Salvador os números, que quase nunca dizem com exatidão a real situação no dia a dia, são piores, quando levados em consideração os números das grandes metrópoles país afora. Com uma taxa de 8,3 a cada 100 mil mulheres, a capital baiana ocupa a quinta colocação quando o assunto é violência contra a mulher (a média nacional das capitais é de 5,4, de acordo com os dados do Mapa da Violência).

Pode parecer exagero, mas são nesses mínimos detalhes, em mínimas atitudes como a relatada àcima, que os problemas se sustentam e manifestam-se para o futuro. Aquela risada em conjunto com os rapazes, pode estar sustentando uma situação muito delicada, que tem uma trajetória de séculos e mais séculos de opressão ao gênero.

A mulher é o seu próprio espaço privado; é o seu canto intocável.
Humanamente inviolável. Ela é dela. De mais ninguém.

O corpo da mulher não é patrimônio público, quando põe o pé nas ruas. Nem doméstico, quando está dentro de casa.

Não é corrimão para passar a mão. Nem telefone público, pra se dizer qualquer asneira.

E muitas, acuadas, estuporam. Deixam passar, já que é um tipo de violência assim como muitas outras, impossível de se impedir. O homem é o “mais forte”. E uma pessoa capaz de dizer o que diz naquele momento, pode fazer coisa pior. Então fica por isso mesmo.

As gerações futuras serão aconselhadas a entender que é uma coisa normal. Até que se pense necessariamente sobre a educação em casa, nas ruas, nas escolas, nos meios de comunicação.

A intimidação, o assédio, a inferiorização, não podem ser sombra de dúvida do feminino nas ruas.

Desacostumar a estas ideias sexistas dos dois lados que vulnerabilizam cada vez mais as relações de gênero é o começo de uma melhor organização nos valores sociais.

Discutir o assédio nas ruas, promover formas de evitar este tipo de intimidação é importante para que se chegue a uma possível solução em nome do respeito e do bem-estar entre as pessoas.

Para que se possa sair à vontade na rua, ter passe-livre no jeito.

Ou vai encerrar a discussão, a dizer que a culpa é da roupa que ela usa? Ou por quê ela é uma vadia?

Qual a próxima desculpa até que tanta gente saia lesada?

http://thinkolga.com/chega-de-fiu-fiu/

quinta-feira, 25 de julho de 2013

ARTISTA NÃO SABE COBRAR


Grafite de Denissena

Artista não sabe cobrar.

Não acredita que um pedaço de papel dite o valor daquela sensação ao preencher aquele compasso, ou pintar aquele quadro. Não acredita que a vida virou um grande negócio. 

Vive num mundo paralelo, lunático. Atrasado, diante do mundo.

Não acredita, muitas vezes que o que faz é um trabalho. Mas sofre, como estando estar em um.


Os lapsos de loucura maligna e doenças psicosomáticas que adquire com o estresse da profissão. As horas que ele fica sozinho sem a família. Ou que termina relacionamentos promissores por falta de tempo e dedicação. As histórias são muitas, de gente que desiste por que não conseguiu tocar seu o instrumento; a sua vida, comprar as suas tintas. 


Por que geralmente o que ofereciam não dava nem pra voltar pra sua cidade, isso quando era pago. Ou consertar o seu violão. Ou pagar as suas contas. Ajudar a família. Ou convidar a mulher para jantar fora de casa no meio do mês
.

Porquê tinham que tocar quatro horas seguidas num lugar que não davam a mínima para ele. Porquê passaram a vida inteira dançando a dança no que não tinha jeito. 
Ou mesmo por que quantia em dinheiro, virou sinônimo de respeito. 

Tenho, tive amigos que me renderam histórias. H
istórias que até hoje não acredito, mas que são verdade. Confesso, às vezes tenho muito, muito medo de ser uma delas algum dia. Desistiram da arte. Desistiram da vida. Desistiram de sequer querer alguma coisa com essas duas.

Mona, a minha Namorada, questionou-me sobre a minha forma de trabalhar.
Minha maneira de cobrar o meu valor, se é que me entendem; o justo valor por uma concepção criativa, por sentir por alguém; por dar uma vida inteira pelas coisas que faço, e não ser devidamente respeitado.


Me chateei. 

Fechei a cara e com o meu orgulho e vaidade deixei de ouvir o que ela sempre discordava em mim. Isolei-me da conversa em que estávamos. Pus desesperadamente um ponto final abrupto e deselegante no meio de um paragrafo incompleto seu.

Perdi mais uma vez uma boa oportunidade de melhorar na vida. Ser menos ignorante comigo mesmo.
Alguém, percebendo alguma coisa que me atrapalhava, querendo me fazer crescer. Construir junto, alguma solução para deixar de olhar somente pelo lado divino e ingênuo das coisas.


Por que sabia eu que ela estava certa. Não aprendi ainda a lidar com a verdade. A minha arte pode ser o que ela for. Mas que o artista, acima de tudo, deve ser responsável por ela. 

Deve acompanhá-la no seu mundo.

Deve aprender a se respeitar, para que possa ele ser respeitado.
Respeito se constrói. Respeito é cuidado. O importante é cuidar de si mesmo, para ensinar o que é ser respeitado.

Não pode ser que nem construir um castelo de cartas na praia num dia de tempestade.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O INTERROGATÓRIO AMOROSO


Web


Sou extremamente insuportável.

Quando vejo tristeza por perto, quero salvar o mundo dela.
Sem lembrar que muitas vezes ela é necessária.

Interrompo, indago, proponho.
Me torno um interventor de obras prontas. Um poeta de versos inúteis.

Fico rodeando; olhando de cima, procurando as respostas que não dizem a meu respeito. Me inquieto, opino;

um autêntico psicólogo made in feira do rolo.
É muito, muitíssimo óbvio que quem está triste e pensativo, precisa mesmo é de se isolar um pouco do mundo. Ficar na sua. Estar em silêncio [ou não]. Ter a oportunidade de entrar em comunhão consigo mesmo.

Nestas horas, é bom se afastar.

Por mais que se esteja cheio de boas intenções, não é saudável interferir no silêncio do outro; e por hora é necessário aniquilar os sentimentos egoístas.

Impossível ser uma pessoa necessária; a toda hora, estando tão perto.

Quem não está legal nunca vai se recuperar com a pressão de quem quer saber demais. 
Tende a gerar mais conflito, mais afastamento.

Afinal ninguém precisa dar satisfação de tudo, a quem quer que seja.

Quem está triste acaba mais entristecido ainda com o interrogatório, com a descrição do seu estado de espírito no espelho dos ouvidos.

Portanto: não sabe o que dizer, não diga. Melhor que dizer qualquer coisa.
Não sabe o que fazer, não faça. Melhor que fazer qualquer coisa, indiscriminadamente.

E muito menos pergunte o que fazer, ou dizer.


Dar espaço na cena; na sala, no quarto, ou aonde você estiver; numa hora em que você não é o protagonista, é o melhor sinal de humildade e compreensão.


O amor não pergunta muito.
E com o seu silêncio, ele sim; ajuda a encontrar inúmeras respostas.



sábado, 20 de julho de 2013

A MELHOR AMIZADE


Arte de Marcos Andruchak


Conquistar uma amizade verdadeira não é fácil. Não tem tempo exato para isso. Ela existe de verdade num momento específico. Passa a se mostrar inteira nas horas mais inesperadas.

Compreende o seu espaço, jamais telefona para recriminar, ou mesmo testa o seu sentimento. Esta lá, e lá está. O tempo passa, mas ela não. Amizade não tem tabuada, nem data de nascimento. Ser amigo é ter passe-livre.

Se prender a alguém que se quer para ter onde ir e voltar com respeito, é ser livre.

A amizade tem de ser feinha, pra começar.
Senão é fingimento. Senão é interesse.

Tem que ter defeito, tem que ser estranho. Tem que haver um dente torto, uma cara amarrada. Precisa existir, aquele equívoco que no final das contas, nos deixa mais admirados ainda.

Um defeito aqui, outro ali: e pronto. Tudo se resolve.

Ela está em todos os planos.
Não se conduz uma vida sem ela.

Um casal que não viveu uma amizade antes; ou se esquece que antes de estar junto viveu uma grande amizade primeiro, bem antes do peremptório amor, este tende a acelerar o seu final.

Quem não recorda do seu passado, não refresca as memórias, fatalmente tende a se derrotar no presente.
 

Minha maior amizade começou num reencontro inesperado. Passou por um não no meio da Praça das Artes. Veio com um tornado quebrando telhados. Viajou por entre fibras óticas, entre linhas telefônicas e mensagens no celular e continuou crescendo entre os coqueiros entardecidos.

Até crescer mais que os coqueiros.
Fincar mais que as raízes.

Hoje ela dorme comigo.
Dorme sempre primeiro que eu.
Chega cansada do mundo medíocre, moída de não entender muita coisa. Espera o meu peito chegar, meu coração bater perto; a minha porta abrir, a minha voz de camomila lhe entorpecer.

De madrugada, quando faz frio, puxamos o cobertor que dividimos.
Dividimos a cama, as dívidas, as tristezas, o carinho nos felinos, o computador e o mercado do mês.

Não tenho medo por parecer limitar o amor ou vergonha, ao dizer para ela que ela é a minha melhor amiga.

Quando os beijos de amor, os afetos mais íntimos não respondem mais por si, a amizade sempre está lá, fixa, no fundo de tudo. Quererá arrumar a casa, organizar as gavetas. Cuidar incondicionalmente do amor.

Passar mertiolate para arder e esparadrapo para preservar.
Amizade é a pedra fundamental da nossa união.  
O amor que não morrerá, se for bem cuidado. 

É como um código de batalha cotidiano; como o juiz de todos os momentos. Quando exageramos um com o outro, por mais que o muro do orgulho seja grande e ferino entre nós dois, poderemos ser capazes de derrubá-lo quando quisermos para estarmos perto novamente.

É o que sustenta nossa loucura, o que nos dá a segurança de fazer qualquer bobagem, de mandar o outro embora, de dizer qualquer asneira. De sentir-nos fracassados; de morrermos de amargura, sofrermos de angústia, mesmo sendo difícil se enxergar assim ao lado de alguém.

É perceber que mesmo sendo complicado ser compreendido, alguém se esforça para tal e aos poucos, em homeopáticas medidas rasas ou profundas, consegue um mínimo de compreensão e respeito.

É perceber que quando amamos, o mundo pode estar contra nós, que inventamos um jeito de estar.

A boa amizade cultiva essas coisas.




segunda-feira, 15 de julho de 2013

O PODER DA INVEJA




O senso comum diz pra gente ter muito cuidado com a inveja.

Que a gente não exponha o nosso grande amor, por causa do olho gordo.

Não fale daquele novo trabalho, do sucesso na vida em público, por que com certeza vão querer tomá-lo de você.

Que a gente não mostre a ardência de nossa felicidade, pois existem muitos seca-pimenteiras por aí.

Não demostre harmonia, pois vão querer desarmonizá-lo.

Se sentir inveja já é complicado, ter medo da inveja alheia é atestar a própria insegurança diante do monstro dos olhos esverdeados.

Então como solução, mostre o desamor; para não correr o risco.

Não resista e faça tudo pela metade, para não terem nada pelo que pensar ou ansear de você.

Esconda-se na sua tristeza, para que os outros não sintam inveja da sua felicidade.

Pois de tristeza, ninguém sente inveja.
Inveja é tristeza.

Se anule; viva com medo. Não dobre à esquina, pois muitos irão invejar a sua força de seguir o caminho que se quer. Tire a palavra coragem do dicionário.

Não viva.
Esqueça disso.