sábado, 20 de julho de 2013

A MELHOR AMIZADE


Arte de Marcos Andruchak


Conquistar uma amizade verdadeira não é fácil. Não tem tempo exato para isso. Ela existe de verdade num momento específico. Passa a se mostrar inteira nas horas mais inesperadas.

Compreende o seu espaço, jamais telefona para recriminar, ou mesmo testa o seu sentimento. Esta lá, e lá está. O tempo passa, mas ela não. Amizade não tem tabuada, nem data de nascimento. Ser amigo é ter passe-livre.

Se prender a alguém que se quer para ter onde ir e voltar com respeito, é ser livre.

A amizade tem de ser feinha, pra começar.
Senão é fingimento. Senão é interesse.

Tem que ter defeito, tem que ser estranho. Tem que haver um dente torto, uma cara amarrada. Precisa existir, aquele equívoco que no final das contas, nos deixa mais admirados ainda.

Um defeito aqui, outro ali: e pronto. Tudo se resolve.

Ela está em todos os planos.
Não se conduz uma vida sem ela.

Um casal que não viveu uma amizade antes; ou se esquece que antes de estar junto viveu uma grande amizade primeiro, bem antes do peremptório amor, este tende a acelerar o seu final.

Quem não recorda do seu passado, não refresca as memórias, fatalmente tende a se derrotar no presente.
 

Minha maior amizade começou num reencontro inesperado. Passou por um não no meio da Praça das Artes. Veio com um tornado quebrando telhados. Viajou por entre fibras óticas, entre linhas telefônicas e mensagens no celular e continuou crescendo entre os coqueiros entardecidos.

Até crescer mais que os coqueiros.
Fincar mais que as raízes.

Hoje ela dorme comigo.
Dorme sempre primeiro que eu.
Chega cansada do mundo medíocre, moída de não entender muita coisa. Espera o meu peito chegar, meu coração bater perto; a minha porta abrir, a minha voz de camomila lhe entorpecer.

De madrugada, quando faz frio, puxamos o cobertor que dividimos.
Dividimos a cama, as dívidas, as tristezas, o carinho nos felinos, o computador e o mercado do mês.

Não tenho medo por parecer limitar o amor ou vergonha, ao dizer para ela que ela é a minha melhor amiga.

Quando os beijos de amor, os afetos mais íntimos não respondem mais por si, a amizade sempre está lá, fixa, no fundo de tudo. Quererá arrumar a casa, organizar as gavetas. Cuidar incondicionalmente do amor.

Passar mertiolate para arder e esparadrapo para preservar.
Amizade é a pedra fundamental da nossa união.  
O amor que não morrerá, se for bem cuidado. 

É como um código de batalha cotidiano; como o juiz de todos os momentos. Quando exageramos um com o outro, por mais que o muro do orgulho seja grande e ferino entre nós dois, poderemos ser capazes de derrubá-lo quando quisermos para estarmos perto novamente.

É o que sustenta nossa loucura, o que nos dá a segurança de fazer qualquer bobagem, de mandar o outro embora, de dizer qualquer asneira. De sentir-nos fracassados; de morrermos de amargura, sofrermos de angústia, mesmo sendo difícil se enxergar assim ao lado de alguém.

É perceber que mesmo sendo complicado ser compreendido, alguém se esforça para tal e aos poucos, em homeopáticas medidas rasas ou profundas, consegue um mínimo de compreensão e respeito.

É perceber que quando amamos, o mundo pode estar contra nós, que inventamos um jeito de estar.

A boa amizade cultiva essas coisas.




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