Salvador, 10 de setembro de 2013
Fulana caminhava tranquila pela Avenida Sete de Setembro. Tinha saído da academia provavelmente; poderia estar indo para a casa, se arrumar pros seus compromissos diários.
Seus braços miúdos estavam ocupados com o volume que carregava. Um cesto de flores no braço esquerdo, desses que guarda lembranças com chocolates, cartão de namoro, coisas assim.
Do seu lado direito, tinha as mãos dadas com uma criança que aparentava uns seis, sete anos de idade. Conversavam sobre uma série de coisas.
Num dado momento um homem alto, bonito e bem vestido, passa em sentido contrário e pára na frente de Fulana: assovia, mirando minuciosamente o seu corpo e passando a mão em seus cabelos cacheados. Completa ele, com a seguinte frase:
- "Que delícia você com essa roupa. Te lasco inteira em banda, neguinha."
Fulana abaixa a cabeça e transforma o sorriso numa desfiguração medonha. Xinga o homem que ri, já a alguns metros de distância. A criança presenciara tudo. Sente por um momento vergonha dela. Abaixa o queixo, respira fundo.
- Liga pra esse babaca não, moça. Disse eu impulsivamente, constrangido e passando ao seu lado, temendo até uma resposta negativa por parte dela, o que seria de se entender.
Ainda de olhos baixos, ela me responde:
- "Nada não menino. É normal, já estou acostumada com isso."
Virou-se para a menina, e complementou:
- "Já sabe como é né? É assim mesmo. Vá se acostumando com essas coisas, quando você ficar mais mocinha."
E foi-se embora, seguindo o seu caminho.
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Escutava muito, que os homens de Salvador em maioria, salvo exceções - são muito sujos. Que olham a mulher de uma forma estuprante; psicopática.
Me sinto até mal quando escuto tal afirmação.
Que quando não somente apalpam a palavra, vêm acompanhados fortemente de algum tipo de violação abundante.
Na cidade, encontramos muitos problemas com relação à violência do homem, contra a mulher. Em Salvador os números, que quase nunca dizem com exatidão a real situação no dia a dia, são piores, quando levados em consideração os números das grandes metrópoles país afora. Com uma taxa de 8,3 a cada 100 mil mulheres, a capital baiana ocupa a quinta colocação quando o assunto é violência contra a mulher (a média nacional das capitais é de 5,4, de acordo com os dados do Mapa da Violência).
Pode parecer exagero, mas são nesses mínimos detalhes, em mínimas atitudes como a relatada àcima, que os problemas se sustentam e manifestam-se para o futuro. Aquela risada em conjunto com os rapazes, pode estar sustentando uma situação muito delicada, que tem uma trajetória de séculos e mais séculos de opressão ao gênero.
A mulher é o seu próprio espaço privado; é o seu canto intocável.
Humanamente inviolável. Ela é dela. De mais ninguém.
O corpo da mulher não é patrimônio público, quando põe o pé nas ruas. Nem doméstico, quando está dentro de casa.
Não é corrimão para passar a mão. Nem telefone público, pra se dizer qualquer asneira.
E muitas, acuadas, estuporam. Deixam passar, já que é um tipo de violência assim como muitas outras, impossível de se impedir. O homem é o “mais forte”. E uma pessoa capaz de dizer o que diz naquele momento, pode fazer coisa pior. Então fica por isso mesmo.
As gerações futuras serão aconselhadas a entender que é uma coisa normal. Até que se pense necessariamente sobre a educação em casa, nas ruas, nas escolas, nos meios de comunicação.
A intimidação, o assédio, a inferiorização, não podem ser sombra de dúvida do feminino nas ruas.
Desacostumar a estas ideias sexistas dos dois lados que vulnerabilizam cada vez mais as relações de gênero é o começo de uma melhor organização nos valores sociais.
Discutir o assédio nas ruas, promover formas de evitar este tipo de intimidação é importante para que se chegue a uma possível solução em nome do respeito e do bem-estar entre as pessoas.
Para que se possa sair à vontade na rua, ter passe-livre no jeito.
Ou vai encerrar a discussão, a dizer que a culpa é da roupa que ela usa? Ou por quê ela é uma vadia?
Qual a próxima desculpa até que tanta gente saia lesada?
http://thinkolga.com/chega-de-fiu-fiu/
