Pintura de Camila Bustios
Me disseram que era preciso caminhar com os paradigmas. O mundo anda mais prático.
Os bens se tornaram o complemento do bem.
Um dia os números no banco irão triplicar em nossas contas. A carga horária de trabalho aumentará. Quitaremos todos os nossos débitos. Compraremos a nossa tão sonhada máquina de lavar. A nossa tão querida casa.
A tabuleta de seja bem-vindo reluzirá em cima do piso. Contrataremos serviços tais para se ter mais tempo para mais planejaremos o precioso futuro. Aquilo que está por vir de todos os lados.
Tiraremos a prova dos nove de tudo entre zeros e uns números cardinais.
Continuaremos o ciclo. O até quando ininterrupto surto de Adão e Eva.
Continuaremos o ciclo. O até quando ininterrupto surto de Adão e Eva.
Então não haverá necessidade de nos preocuparmos em consertar tanta coisa. A mobília velha dará lugar à nova. E e a cama de casal poderá aumentar
gradativamente o tamanho e tornar-se quem sabe uma king-size americana. Com a aquisição, teríamos a plena dimensão do gramado da Arena Fonte Nova em nosso quarto. De um gol para o outro.
Mais nostálgico, lembro da cama ir encolhendo para o nosso colchão velho e esquecido no canto, salpicado de pó de passado. Aquele traste desnecessário e democrático de um inverno remoto, lá no começo e que mais serve hoje como consolo, ao hóspede perdido.
Boas lembranças, boas coisas, são aquelas que nos movem para retirar a poeira que de vez em quando se assenta sobre elas. Elas vibram intensamente na ponta dos dedos, como se fossem novas.
Boas lembranças, boas coisas, são aquelas que nos movem para retirar a poeira que de vez em quando se assenta sobre elas. Elas vibram intensamente na ponta dos dedos, como se fossem novas.
O lugar de onde dormir diminuindo até que sejamos a cama um do outro.
E poder roçar as nossas costas, alisar as virilhas e arrancar as lêndias de dentro da cabeça; e morder os piolhos de araçá.
E poder roçar as nossas costas, alisar as virilhas e arrancar as lêndias de dentro da cabeça; e morder os piolhos de araçá.
Até vivermos como se a
casa andasse nua; sem gás, computador, ou quase nada.
Somente o frio branco dos azulejos a pisar os nossos olhos inexperientes. E o papel-alumínio do almoço alimentando o desejo.
Somente o frio branco dos azulejos a pisar os nossos olhos inexperientes. E o papel-alumínio do almoço alimentando o desejo.
O lar sempre a ser preenchido da gente: debalde os
dois baldes, os panos velhos; os produtos de limpeza, a vassoura ruim,
o papelão de apanhador e um chão firme para ajeitar.
o papelão de apanhador e um chão firme para ajeitar.
Nós dois.


