sexta-feira, 22 de março de 2013

FAXINAR A CASA


Pintura de Camila Bustios


Me disseram que era preciso caminhar com os paradigmas. O mundo anda mais prático.
Os bens se tornaram o complemento do bem.

Um dia os números no banco irão triplicar em nossas contas. A carga horária de trabalho aumentará. Quitaremos todos os nossos débitos. Compraremos a nossa tão sonhada máquina de lavar. A nossa tão querida casa.

A tabuleta de seja bem-vindo reluzirá em cima do piso. Contrataremos serviços tais para se ter mais tempo para mais planejaremos o precioso futuro. Aquilo que está por vir de todos os lados.

Tiraremos a prova dos nove de tudo entre zeros e uns números cardinais.
Continuaremos o ciclo. O até quando ininterrupto surto de Adão e Eva.

Então não haverá necessidade de nos preocuparmos em consertar tanta coisa. A mobília velha dará lugar à nova. E e a cama de casal poderá aumentar gradativamente o tamanho e tornar-se quem sabe uma king-size americana. Com a aquisição, teríamos a plena dimensão do gramado da Arena Fonte Nova em nosso quarto. De um gol para o outro.
  
Mais nostálgico, lembro da cama ir encolhendo para o nosso colchão velho e esquecido no canto, salpicado de pó de passado. Aquele traste desnecessário e democrático de um inverno remoto, lá no começo e que mais serve hoje como consolo, ao hóspede perdido.

Boas lembranças, boas coisas, são aquelas que nos movem para retirar a poeira que de vez em quando se assenta sobre elas. Elas vibram intensamente na ponta dos dedos, como se fossem novas.

O lugar de onde dormir diminuindo até que sejamos a cama um do outro.
E poder roçar as nossas costas, alisar as virilhas e arrancar as lêndias de dentro da cabeça; e morder os piolhos de araçá.

Até vivermos como se a casa andasse nua; sem gás, computador, ou quase nada.
Somente o frio branco dos azulejos a pisar os nossos olhos inexperientes. E o papel-alumínio do almoço alimentando o desejo.

O lar sempre a ser preenchido da gente: debalde os dois baldes, os panos velhos; os produtos de limpeza, a vassoura ruim,

o papelão de apanhador e um chão firme para ajeitar.

Nós dois.

domingo, 17 de março de 2013

CONSELHO DE AMIGO



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Arte de Karla Gerard.

I

Não chores assim menina:

Bem toda a dor, que quando é rima do 
[verdadeiro] amor
                     há de ser pequenina.

Não chore por falsidade. 
Viver, ainda mais para a gente; é uma arte.

E o que deve mesmo de lei
arder na vida

é a pimenta,
o amor,
e a cor do mertiolate!

II

Reza para os seus
e aquele de lá de cima

naquilo que a gente crê
e desatina


Se é gente ou bicho
serpente ou cobra
laranja ou
lima; ou mesmo gente morta.

III

Beija logo este rapaz!
Daqui a pouco ele se esvai
numa coluna de tempostais
e nunca mais, nunca mais

voltará atrás para ver o seu vestido
carmesim]

E que seja logo!
antes que venha

a mãe e o pai.

Por que se não, tu já sabes: 
é dor duas vezes 



é ui e é ai.


[Salvador, 26 de março de 1999.
Colégio; oitava série. 
Sala de  aula.]

quarta-feira, 13 de março de 2013

POIS A VIOLÊNCIA MUDA A NOSSA ROTINA


Pintura de Suzanne Marie Leclaire


A brutalidade é a principal matéria nos jornais da cidade hoje. Grande fonte de audiência nas redes sociais,  enas mídias de comunicação. O quanto mais cruel é o tipo de violência; mais inovadora, mais vendável ela é. Na tal indústria do medo e nos programas de televisão e rádio então, é muito, mas muito lucrativa.

Ela também é a principal disciplina nas escolas. A principal filosofia dos dias de hoje. Sem a brutalidade dos sistemas os paradigmas não funcionam corretamente.

É raro encontrar alguém que nunca foi vítima de algum tipo de violência. Ou que não conheça alguém próximo que tenha sido. O que difere de alguns anos atrás, em que a raridade consistia exatamente no contrário. Hoje tudo acontece diante dos nossos olhos. Não há mais a cortina translúcida do pudor. 

Salvador hoje está cheia de ira; de crises de estresse, taquicardia, epilepsia, dor de barriga, sudorese, tensões musculares. Sofre de síndrome do pânico, hipertensão, depressão, agorafobia, ansiedade, tantas patologias, paranoias e outras neuroses. Sente um medo periclitante de ter medo.

Não consegue mais sair de casa e tomar aquela aguinha de coco na praça, sem estar ressabiada. 
Deixa de ir ao teatro e ao cinema nos finais de semana.
Não pega o trem. Nem o barquinho.

Ela não deixa mais as crianças brincarem até tarde na porta de casa porquê outra vez, arquitetaram num trote o sequestro do filho de cinco anos do vizinho. Portanto, o quanto mais elas permanecerem no bunker do lar, melhor.

Na entrada de sua casa há três cadeados, dois portões, duas correntes e duas portas de metal; ambas com duas trancas. Todas as suas janelas são gradeadas. Quando alguém toca a campainha, ela olha cuidadosamente por um minúsculo olho mágico furado na porta, antes de tomar qualquer atitude precipitada.

Ao final de cada ano, divide com os amigos anônimos que preferem não divulgar as suas identidades temendo represálias, quantas vezes foi assaltada ou agredida moral, psíquico, fisica ou verbalmente. Para eles, deveria ela estar acostumada e seguir a vida normalmente como deve ser. É assim mesmo.

Para eles, só nos resta apelar para o escasso bom senso; para o conhecimento ou piedade irreal de quem tem a terrível capacidade de. Aquela que esvazia as ruas; que causa a desconfiança diurna e noturna; que gera mais a ela mesma que se pode imaginar.

Não há jeito mesmo que assim; e sei que vou morrer uma hora ou outra e ser mais um destes números no IML.


Espero especialmente que a minha morte, ao menos sob essa corrente de barbaridades, seja conservada para mim.

E eu só peço que não seja por assassinato,

ou imprudência alheia.

Que não seja pela mão do outro semelhante.

Acredito que a dor da desesperança seria maior do que qualquer outra coisa.

Que não seja num dia em que eu esteja muito, mas muito feliz; ou que a tristeza me arrebate o alabastro na calçada.

Que não seja enquanto eu estiver lendo algum livro que seja muito bom, ou mesmo redigindo algum texto de importância. Que não possa ser no momento de eu estar amando, ou tocando um instrumento: não aprecio coitos interrompidos.

Que não me afoguem, nem me queimem, espanquem, empalem, envenenem, esquartejem ou me torturem. Que façam nada com as minhas mãos e meus ouvidos. Que não me arremessem cravejado de balas na Estrada Velha do Aeroporto, com as mãos e os pés atados.

Que não carbonizem o meu corpo no microondas à beira de um penhasco obscuro; a mim e à minha tão pequena e há muito oprimida e sonhada "liberdade", nos tempos de hoje.

Aliás, façam o que quiser, o que bem-entenderem.


Mas por favor:

nunca, 
nunca atente contra quem eu ame.