"The Key". Pintura a óleo de Jackson Pollock
A única coisa que eu tinha quando mais
jovem, eram os meus textos. E a sombra árborea dos meus livros. Coisas que
poderia dizer que eram minhas. Eram papéis de embalar pão, cadernos velhos,
livros usados, paredes brancas, a pele e a palma das mãos, tudo havia de ser
escrito em cima. As palavras me fascinavam e no final delas sempre havia ao
menos um pote de estrelas.
Era uma pessoa do mundo; com os meus
problemas, meus defeitos. E me resumia aos livros que lia, às fantasias que
criava, às coisas que inventava e que ninguém entendia. Durante um tempo, conheci autores que
hoje, caso os visse na rua – passariam como desconhecidos em minha frente. Lia
coisas que pouca gente leu. Que vagamente lembro. Mas que de alguma forma creio
que estão no que escrevo. Em minha forma de falar, de agir.
Morava nos livros onde quer que eu fosse;
com direito a pôr uma placa de “não perturbe” a quem quer que
se aproximasse de mim. Alguma coisa que escrevesse, e algum lugar para escrever
era o suficiente para estar em algures. Eu era invisível aos olhos de onde ia.
E gostava de ver as pessoas sobre o meu elefante. Aos meus nove anos, garatujava livros de
miniatura em papéis-cartão recortados e os vendia aos meus amigos. Provavelmente nem
existem mais, foram para o lixo de suas mães, assim como se vai toda a imaginação
em abundância.
Em casa ou na escola secundária ou
primária, diziam que eu era lunático demais. Diziam-me que eu morava em outro
mundo. Tinha perguntas intransigentes. Questionava demais. Perturbava a paz
alheia, com as minhas perguntas bobas e com as perguntas tão daninhas que
brotavam dos livros. Era impossível, como criança. E logo, lunático. Depois, diziam que quando crescesse, iria conhecer a vida como ela é e
deparar-se com um mundo verdadeiramente cruel. Iria decepcionar-me. Não
resistiria.
Mas a literatura me protegia. Escrever diante de um problema era constituir o meu castelo. As letras eram os tijolos da minha fortaleza. As palavras, as vigas. As frases, os pilares. As ideias: o concreto. O teto: não havia teto. E poderia assim agir junto as palavras. Pensar era desembrulhar um papel velho e arduamente escrever, reescrever em cima.
O meu dia era em função das minhas madrugadas. Onde eu teria silêncio e solidão para finalmente viver. Silêncio e solidão. Onde respirava, amiúde, a minha pequena liberdade. Ali. Naquela mesa quadrada da cozinha. À véspera da luz. Livros; papéis à mesa, caneca ou copo. Garrafa térmica. Caneta e lápis. Os meus quinze, desesseis, desessete, dezoito, vinte e poucos anos. Em seis plenas horas do dia, eu estaria lá. Era o que eu tinha. A literatura era o meu castelo. Gostava de viver nela pois lá eu poderia me sentir sozinho. E era o que me confortava.
- Como era bom estar sozinho, pensava.
Pois para escrever, é preciso estar só.
Escrever é arar seu próprio campo, escrever é orar seu próprio canto.
Escrever é arar seu próprio campo, escrever é orar seu próprio canto.
Quando cresci mais um pouco, conheci o tal
do mundo, e de tão
deslumbrado com tanto antagonismo os meus olhos endureceram. Quando me vi,
já estava fora de lugar. O meu pensamento calou-se, assustado. E assim
ficou por um bom tempo, sem palavras. Passei a abandonar os meus livros nas
praças, nos coletivos. Dava a quem precisava. Oferecia como se oferece água. E com o passar do tempo, escrever não já era mais
a minha realidade. O dia passou a ser a minha vida. E a noite, a minha morte.
Morria todas as noites. Ás vezes já estava morto todos os dias e todas as
noites. E por fim, deixei de estar só.
Se alguém me perguntar hoje em dia, não
sei mais da literatura. Não leio com a mesma volúpia de antes; não tenho o
mesmo cuidado pelos livros. Mal os tenho em minhas mãos. Mal escrevo. Os meus olhos e as minhas mãos não
sabem mais o que procuram.
Não sei mais estar só.
Não sei mais estar só.
Ergo os meus textos de outrora, tiro-os da
poeira e dos seus nomes aos montes. Há textos em caixas que nunca vi ou sequer
lembro de onde tê-los guardado. Há textos em caixas que nunca vi. Há textos em
caixas. Aliás não lembro de quando ter começado essa coisa de pensar por
caixas. Não lembro de quando ter começado estas coisas. Não lembro de quando.
Não lembro. Os meus
castelos estarão cobertos de pó. Estarão abandonados. Em algum lugar além
daqueles pedaços de papel com tinta em cima, que encontrei na memória de algum
lugar esquecido.
E agora só os resta serem relidos.
Voltar de onde parei. Reencontrar-me.
Ler.
Reler.
Reler-me em tudo.
