Arte de Luciana Severo Frota
Nunca chegue cedo demais na hora em que você deveria chegar em casa.
Chegue sempre no combinado. Atrase até.
Respeite os seus pressentimentos. Nunca antecipe o encontro.
Nunca se afobe quando o encontro estiver próximo.
Ligue antes de chegar, mande uma mensagem de texto no celular, um sinal de fumaça; avise por correio, e-mail, aviãozinho, código morse. Bata na porta que nem o Sheldon Cooper vinte vezes antes de passar pela última barreira para pisar o tapete da casa.
Ou senão demore e não avise nada a não ser que tenha sido solicitado.
Ande devagar, contemple as estrelas, a rua deserta na noite.
Fique mais um pouco sustentando a saudade.
Não vá enfiando a chave de uma vez na fechadura da porta dos fundos e entrando como se fosse entrar em qualquer lugar. Entre pela porta da frente, onde raramente residem as surpresas.
Entre cuidadosamente.
Pé ante pé, pela sala.
Pode-se pegar as panelas sujas; os ingredientes ainda sobre a mesa, o melhor capítulo da novela ainda no último volume, a expectativa ainda sendo sentida; o sentir-se à vontade que é crime pegar em flagrante e só pode ser provado sozinho.
Pode sentir-se você o invasor; o estraga-surpresas.
Aquele que chega sem se importar com o que virá no final da noite.
Aquele que fecha as contas e encerra o expediente amoroso, mesmo antes de chegar em casa em vez de valorizar o melhor momento do dia.
Aquele em que se pode descansar o peso do mundo no cabideiro (ou também jogá-lo pela janela) e o da cabeça num colo.
Aquele em que não se precisa ficar gastando assunto ou dizendo como foi o dia que estamos cansados de viver e dizer. Em que se poupa as palavras e se beija com os lábios secos de sede para deixá-los hidratados novamente.
E aí não importa o que você diga, - o que era pra ser não será mais.
A surpresa planejada em si não terá início, ou sequer terá algum tipo de fim que deveria ou poderia ter.
Você não ficará surpreso. Ela ficará surpreendida.
Rendida, com as evidências na mão.
Rendida, com as evidências na mão.
E mesmo que ela não diga, rediga, diga que está tudo bem:
ficará a grande dúvida e frustração no ar de como teria sido a experiência simplesmente se o que era pra vir depois, veio antes.
Ficarão dois conselhos para o amor:
Antes (um pouco) tarde do que nunca.
Só termine um dia mesmo, quando ele encerrar-se por si próprio.
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