domingo, 28 de abril de 2013

MEUS ADORÁVEIS PAIS


Pintura de Edvard Munch.

Meus pais nunca me contaram como se conheceram.
Como se apaixonaram. O que os uniu um dia; para um dia serem pilares de um mesmo teto.

O que de repente ela esperava de um homem, o que ele esperava de uma mulher. 
Se juntos, tinham os sonhos de qualquer casal jovem dos anos 80. 

Se ele pensava nela antes do café da manhã; 
Se ela pensava nele enquanto estava na escola.

Não cheguei a tempo de saber a parte estável da vida deles.
Cheguei na hora de ver o medo escarpado em suas faces; e a traição lavrando ambas as mãos.
Vi as porcelanas quebradas; a casa revirada, as brigas violentas; a torneira sendo aberta para inundar a casa e o casamento.

Cheguei bem tarde, no olho do furacão, no final de um filme que parecia não ter fim. 
Só pude ver os créditos na culpa. A sessão vazia.
O dono da cantina ao lado, arrumando as cadeiras e alisando a flanela branca no balcão vazio. 

Tudo tinha terminado, e acabei não conhecendo direito o primeiro amor.
O amor que talvez me permitiu chorar o primeiro choro de fora da barriga.
Aquele que quando se foi, se foi abrupto; e me deixou uma dificuldade enorme em aprender com a vida. 

Hoje meus pais evitam me responder a qualquer pergunta sobre o passado. São péssimos conselheiros amorosos. Permanecem mudos. Preferem assim. Sentem uma vergonha humilhante de terem se apaixonado um dia. 

Ele abaixa o queixo. Desvia o olhar vacilante para algum ponto perdido no infinito e comenta sobre a nova contratação do Esporte Clube Bahia.

Ela levanta a cabeça. Engole o décimo sexto copo de cerva e em seguida pergunta como estão os meus cães; enquanto só tenho gatos.

Fingem que o tempo passou.
Como se finge que não se tem uma vida inteira para viver e suportar, antes de morrer.

Não insisto mais, pois seria muita maldade com o coração dos meus velhos. Persistir no meu egoísmo de querer saber das coisas. Mostrar-lhes as ruínas. Eles não tem culpa de nada. 

O amor sempre acaba. Acaba e recomeça num mesmo lugar, se assim ele tiver forças.
Só tiveram culpa das lacerações mútuas. Das palavras irreparáveis, ditas um ao outro.
Se machucaram demais, numa guerra sem propósitos.

Para eles só restaram de conselho os defeitos infindos a serem versados para o filho único: 

De quem foi o pior marido, de quem foi a pior esposa; 
De que eu não devo ser como o meu pai; 
De que eu não devo viver com uma mulher como a minha mãe.

De quem eu deveria ter defendido na trincheira do divórcio.

Mas cheguei a tempo de descobrir que o mundo não era tão fácil.
Que a felicidade é uma questão de tempo e uma boa dose de amor próprio.
Que a função de todo o filho é a de superar os seus pais.

Que o que eu precisava mesmo era sair da realidade e enxergar o o avesso de seus gestos para poder viver. Crescer e não repetir o mesmo filme novamente.

2 comentários:

  1. A gente sempre pode mudar o roteiro, acrescentar novos créditos ao final do nosso filme... Nem toda película vale a pena ser repetida. ;)

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  2. Mui Belo... Um cotidiano relatado d forma poética,
    Uma das Frases Impactantes...
    Os Pais Dele: (Sentem uma vergonha humilhante de terem se apaixonado um dia)

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